Quando se parte à descoberta de uma cidade ou vila, um dos pontos turísticos inescapáveis é a sua comida regional. Seja depois de uma refeição ou num momento de pausa, um doce local é a “cereja no topo do bolo” para uma aventura gastronómica completa. Já para os portugueses, muitas são as localidades, de Norte a Sul de Portugal, cujo nome nos faz crescer água na boca… Basta lembrar Aveiro e os seus ovos-moles, Tentúgal e os seus pastéis, ou Sintra e os famosos travesseiros e queijadas. Casos há, até, em que a história da cidade se confunde com a história das iguarias. Para celebrar esta tradição gastronómica, o All About Portugal revela-lhe boas razões para conhecer estas regiões.

Cristas de Galo, Vila Real

Foram criados pelas monjas do Convento de Santa Clara para serem consumidos apenas na Quinta-Feira Gorda (a seguir ao Carnaval) e nas “obrigações” do convento, como a festa de Santa Clara, o Sábado de Ramos e o dia de São Domingos. Ao longo do tempo, a receita do doce, também conhecido como Pastel de Toucinho, foi passando para a comunidade. Hoje, as Cristas de Galo, confecionadas com recheio de amêndoa e doce de ovos, são uma das principais iguarias conventuais típicas de Vila Real.

Pudim Abade de Priscos, Braga

Manuel Joaquim Machado Rebelo, Abade de Priscos, freguesia de Vila Verde, em Braga, ficou conhecido pelos dotes gastronómicos. Reza a história que, em 1887, quando foi convidado a preparar o banquete real, surpreendeu o Rei D. Luís I e família com a sua iguaria peculiar, que ainda hoje faz parte da ementa dos restaurantes minhotos. Pode à partida parecer um pudim tradicional, mas a receita do Pudim Abade de Priscos, que inclui toucinho, confere uma explosão de sabores que agrada à maioria.

Jesuítas, Santo Tirso

Ainda está por desvendar a verdadeira origem deste pastel de massa folhada e cobertura em glacê, que pôs Santo Tirso no mapa da doçaria tradicional portuguesa. Mas tudo indica que terá sido um pasteleiro espanhol, antigo cozinheiro de uma comunidade de padres jesuítas, e posteriormente contratado pela Confeitaria Moura – a mais famosa da região – a trazer a receita para Portugal. O certo é que, para quem visita a cidade, é obrigatório provar a iguaria ou uma variante desta, como o limonete.

Ovos-Moles, Aveiro

Água, açúcar e gema de ovo cru: uma combinação simples mas irresistível, criada pelas freiras do Convento de Jesus em Aveiro, e que se tornou numa das principais atrações gastronómicas da região. Na “Veneza portuguesa”, são vários os locais que mantêm a tradição e que apresentam os Ovos-Moles envolvidos em hóstia em forma de búzios, conchas e peixes, numa alusão à tradição marítima da cidade, ou dentro de barricas pintadas à mão. Seja qual for a forma, o sabor intenso é sempre uma tentação.

Pastéis de Tentúgal, Coimbra

A história da vila de Tentúgal, no concelho de Montemor-o-Velho, cruza-se com a do doce conventual, criado por uma freira carmelita que, querendo presentear as crianças da terra, experimentou rechear a massa fina com doce de ovos. Inicialmente designados Pastéis do Convento, popularizaram-se, servindo como oferenda aos visitantes, pagamento de préstimos e como cura para as anemias. A sua confeção exige paciência e delicadeza, num ritual de preparação que passa de geração em geração.

Pastéis de Belém, Lisboa

Pouco depois da Revolução Liberal de 1820, alguém do Mosteiro dos Jerónimos decidiu pôr à venda uns deliciosos pastéis numa loja associada a uma refinação que existia ao lado. Rapidamente os Pastéis de Belém atraíram visitantes e tornaram-se num ícone da doçaria portuguesa. Apesar de existirem um pouco por todo o país, os pioneiros – confecionados na Oficina do Segredo – são únicos e quem prova fica rendido. A sua popularidade é tal que as filas são uma das imagens de marca daquela rua em Belém.

Travesseiros, Sintra

Os famosos pastéis de massa folhada com recheio de doce de ovos e amêndoa, em forma de travesseiro, foram desenvolvidos pela Piriquita, casa centenária de Sintra, que começou por confecionar outra iguaria da região: as queijadas. Diz-se que foi a filha da fundadora a responsável pela adaptação da receita, na década de 40, cujo ingrediente secreto, que já foi alvo de tentativas de espionagem, ainda hoje se mantém no segredo dos deuses. O melhor mesmo é provar esta doce tentação.

Tortas de Azeitão, Setúbal

Diz-se que a história deste doce, um dos ex-líbris da região, teve início na vila de Fronteira, no Alentejo. No início do século XX, um familiar de Manuel Rodrigues, conhecido como o “Cego”, levou a receita para Azeitão, e a mulher e a filha deram continuidade. Primeiro como torta grande vendida às fatias, e depois em doses individuais, nascendo assim a pastelaria "O Cego". As afamadas Tortas de Azeitão, feitas com Ovos-Moles, e com travo a limão e canela, fazem as delícias dos visitantes.

Sericaia, Alentejo

A sua origem não é consensual: há quem diga que é proveniente da Índia, outros do Brasil, e até no Alentejo há duas cidades a reclamar o doce conventual: Vila Viçosa e Elvas. História aparte, a sua textura fofa e o toque da canela conferem uma agradável experiência gastronómica. Mais do que os ingredientes, o segredo está na forma – tradicionalmente era colocado em pratos de estanho, mais tarde em pratos de faiança. Vai depois ao forno e deve abrir gretas, uma imagem de marca do bolo.

Doces Finos, Algarve

Também conhecidos como Queijinhos, Frutos do Algarve ou Doces de Amêndoa, os Doces Finos são uma das especialidades do Algarve, mais concretamente de Portimão. Pensa-se que sejam de origem árabe, com a amêndoa –um dos mais importantes produtos da região – a servir de base à confeção (a massa é feita com amêndoa ralada). A forma criativa como se apresentam, com aparência de fruta, queijos e enchidos e a perícia que exige a sua confeção fazem deste um doce típico que perdura.

Bolo Lêvedo, Açores

Confecionado com farinha, açúcar, ovos, leite, fermento e manteiga, este bolo, também considerado pão doce, é muito versátil, servindo tanto para acompanhar refeições principais, como um pequeno-almoço ou lanche, com compota ou queijo fresco. Diz-se que surgiu com ligação à época quaresmal do jejum, sem açúcar e sem ovos, confecionado de forma espalmada e redonda, em sertã de barro. Em meados do século XX, ganhou nova vida, com a receita atual, sendo muito popular no Vale das Furnas.

Bolo de Mel, Madeira

É um dos doces tradicionais madeirenses mais famosos, confecionado desde os tempos áureos da produção de açúcar. Há quem diga, também, que terá surgido aquando da chegada das especiarias – já que constam da receita. Certo é que não pode faltar à mesa na época natalícia, devendo ser feito no dia 8 de dezembro, para estar perfeito para degustar no Natal. É que este bolo é conhecido pela longa durabilidade. A tradição manda também que seja partido à mão, e acompanhado com licor ou vinho da Madeira.